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O Espaço Integração de Araçatuba apresenta texto do Programa Educadores da Paz

PRÁTICAS RESTAURATIVAS

O VALOR DOS VALORES

O crescimento humano depende de ligações mutuamente empáticas e mutuamente fortalecedoras de vínculos confiáveis.

A passagem de um sistema agrícola para um sistema baseado em tecnologias industriais, caminha  conjuntamente com a mudança de orientação valorativa. São mudanças  nas estruturas sociais que se fundamentam nos valores culturais, no nível individual, organizacional, social e ambiental, orientadas para relações de dominação e controle de cima para baixo ou orientadas para relações de participação e respeito mútuo. Os relacionamentos definem a vida das pessoas e são a base de todas as instituições sociais, da família e a educação à política e a economia.

Para compreendermos as relações humanas e os relacionamentos dentro da diversidade biológica e cultural, é necessário um entendimento sistêmico e mais amplo do conflito, como um fenômeno relacional, bem como a compreensão valorativa do significado de Paz e Justiça na dinâmica pessoal e social.

Sempre que houver um Ser Humano na cena da vida, a questão da paz é altamente relevante. As guerras internas, nas múltiplas vozes internas, muitas vezes contraditórias dentro da mente humana, em uma pessoa, são por si só desestabilizadoras, imaginemos em meio aos relacionamentos que envolvem inúmeras mentes.

Paz, Justiça e Conflito são questões complexas que exigem um olhar ampliado.

Paz não é ausência de conflito e conflito não é o oposto da Paz. Muito mais que isto, o conflito é um elemento constitucional da vida. O conflito é bem vindo, pois graças a ele precisamos tomar decisões. Nascemos livres e como Seres Humanos, estamos fadados à liberdade, portanto, temos que tomar decisões e sermos responsáveis pelas consequências de nossas escolhas.

Embora pouco perceptível, as decisões tem como base estrutural os valores que norteiam a vida de uma pessoa e da sociedade na qual está inserida e ainda, de todo o sistema organizacional de uma sociedade, onde todos os atores interagem entre si. Portanto, todos são relevantes no processo de transformação de relações disfuncionais e conflituosas, seguidas de experiência de violência.

Segundo John Paull Lederach, um dos maiores especialistas em construção de paz e reconciliação, todos os atores envolvidos numa relação conflituosa, precisam ser abordados de maneira contextual, através de formas adequadas de intervenção para resolução pedagógica de uma determinada situação.

Pensar em resolução de conflito é pensar em relação, é pensar em relacionamentos. O foco do trabalho do conflito está na relação, na restauração das relações entre os atores envolvidos na situação conflituosa.

Neste sentido, dentro de um processo restaurativo, os valores que norteiam a vida dos atores, do ambiente e da cultura na qual estão envolvidos, se evidencia, podendo determinar a condução do processo, pela conexão entre o pessoal e o relacional.

Toda ação restaurativa só poderá ser efetivada de forma pedagógica, se for considerada sob um ponto de vista sistêmico, sustentada em escolhas responsáveis de pessoas livres. Neste sentido, a psicologia humanística, a psicologia positiva tem contribuído, beneficiando as reflexões sobre os conceitos de Paz, Justiça e Conflito, na direção da sustentação do epicentro do conflito. Num processo restaurativo, é fundamental ter clareza de qual é o epicentro do conflito em questão.

O episódio é o que fica evidente, é o que percebemos de maneira imediata, é o visível na superfície do fato, mas, qual é o epicentro?

Para tanto, é preciso empatia, um olhar bem treinado para enxergar qual é a raiz do conflito, para ver além do fato apresentado e desvendar os padrões subjacentes mais profundos no relacionamento, incluindo o contexto em que o conflito se expressa. Portanto, devem ser consideradas as questões de ordem sexuais, de gênero, de desigualdades, sentimentos de pertencimento no grupo social, laços emocionais, valores, resposta mental, na esfera intrapessoal, bem como, as esferas interpessoais relativas à família, comunidade, sociedade e instituições sociais. Ainda é fundamental que em todo processo restaurativo sejam considerados os fatores religiosos, culturais, sociais e políticos.

Não podemos negligenciar as correspondências entre os processos internos e as relações sociais, das pessoas envolvidas num processo restaurativo. São elementos silenciosos, mas, que estão presentes na relação entre todos os atores.

São elementos que se forem bem conduzidos, poderão facilitar o processo restaurativo na medida em que possuem o potencial transformativo ao catalisar conhecimentos, talentos, experiências próprias dos atores em questão.

Portanto, o profissional que irá trabalhar com as práticas restaurativas de resolução de conflito, precisa ter a compreensão deste quadro como uma abordagem metodológica e ainda, o perfil pessoal para atuar nesta tarefa fundamental em nossa sociedade, sobretudo na educação e orientação das crianças e jovens. Esta é uma abordagem que difere das formas convencionais punitivas, apenas penalisantes, de uma justiça injusta alicerçada em valores de dominação e controle, que subjuga e desqualifica e portanto, não transforma, apenas deseduca porque desvaloriza o humano, sua necessidades e sentimentos, desvaloriza  a vida.

O profissional-facilitador que atua na restauração de conflitos, precisa ser treinado nas ferramentas restaurativas, como um método que aborda uma arte e uma ciência

O Professor Dr. Wolfgang Dietrich, diretor da Cátedra UNESCO de Estudos de Paz na Universidade de Innsbruck, Áustria, nos apresenta o seguinte quadro de referências de características dos “autorrealizadores” nas práticas de resolução de conflitos, com as 20 virtudes centrais que podem evocar transformações durante um processo restaurativo:

As 20 Virtudes Centrais do Facilitador nas Práticas Restaurativas de Resolução de Conflitos.  São pessoas que:

“1. percebem a realidade eficientemente e têm tolerância à incerteza e ao estresse;

2. aceitam a si mesmos, aos outros e à natureza humana da maneira que se apresentam;

3. são espontâneos, naturais e genuínos em ação e pensamento;

4. são centrados no problema e não precisam de muitos elogios e popularidade;

5. são capazes de concentrar-se intensamente e têm senso de humor construtivo;

6. são benevolentes, solidários, pacientes e preocupados com o bem-estar dos outros;

7. fazem as coisas de maneira criativa, mesmo quando não têm muito talento para elas;

8. são capazes de adotar ou abandonar as convenções, embora não sejam propositalmente não convencionais;

9. são independentes, autossuficientes e autônomos;

10. apreciam experiências simples e corriqueiras;

11. estabelecem relacionamentos, amizades e amor inter-pessoais satisfatórios com algumas pessoas;

12. sentem uma certa necessidade de solidão e privacidade;

13. são democráticos e não preconceituosos;

14. mantêm padrões éticos sólidos, embora não necessariamente num sentido convencional;

15. são capazes de imparcialidade em relação a sua própria cultura;

16. conseguem adotar ou abandonar convenções culturais;

17. são capazes de comparar culturas sem julgamento ou atribuição de culpa;

18. aperfeiçoam suas energias e qualidades constantemente;

19. tratam os conflitos como construtos da mente e não como fatos objetivos que poderiam ser consertados com os remédios apropriados; sabem que os conflitos (somente) podem ser des-construídos na mente das partes (seres humanos);

20. conhecem as “experiências culminantes”: os sentimentos de êxtase, deslumbramento e admiração, a perda de localização no tempo e no espaço.”

Wolfgang Dietrich  . 2013

São todas ferramentas que abrangem técnicas conhecidas e que são orientadas para a atenção à respiração, à colocação da voz, da escuta e à qualidade do movimento gestual/ corporal, validados pela psicologia positiva.

O Professor Mediador que atua nas Práticas Restaurativas, compartilha da determinação de encontrar ordem nas situações caóticas, descobrindo os problemas comuns e os meios que os transformem pedagogicamente, restabelecendo os vínculos relacionais entre todos os atores pela experiência do Círculo Restaurativo.

Os Círculo de Paz ou Círculos Restaurativos, tem a Paz e a Justiça como valores fundamentais, consolidados pela prática dos valores de Solidariedade, Cordialidade, Gentileza, Bondade, Generosidade, Amorosidade, Alegria Empática, Gratidão, valores que contribuem para o desenvolvimento integral do Ser Humano.

“Uma vez que as guerras começam na mente dos homens, é na mente dos homens que se deve construir as defesas da paz.”

Constituição da UNESCO adotada em Londres, a 16 de Novembro de 1945.

As Práticas Restaurativas são um caminho para o ensino das aptidões solidárias, pela oportunidade de vivenciar a capacidade humana de amar, de criar, de aprender, de transformar e inovar, de participar, de crescer e planejar um futuro que valorize o desenvolvimento e a realização da pessoa humana.

Leituras Sugeridas

–Eisler,Riane A VERDADEIRA RIQUEZA DAS NAÇÕES – 2007, Cultrix

-Lederach, John Paul  TRANSFORMAÇÃO DE CONFLITOS – 2012, Palas Athena

A IMAGINAÇÃO MORAL  - 2005,  Palas Athena

-Wolfgang Dietrich  . 2013