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Círculos restaurativos promovem resoluções de conflitos em escola de Fortaleza

A professora Lília da Silva e o aluno Felipe Oliveira tiveram uma situação conflituosa resolvida com um círculo restaurativo realizado na Sala de Mediação de Conflitos da Escola Osíres Pontes.

Inaugurada oficialmente no dia 24 de agosto de 2016, a Sala de Medição de Conflitos da Escola de Ensino Fundamental e Médio Senador Osíres Pontes, localizada no bairro Canindezinho, em Fortaleza (CE), tem proporcionado para a comunidade escolar a resolução de diferentes conflitos e solucionado problemas a partir dos círculos restaurativos, promovendo a harmonia e o entendimento entre as partes envolvidas. Além de ter apoiado metodologicamente a unidade escolar na implantação da Sala, o Instituto Terre des hommes Brasil tem realizado aos longos destes meses oficinas de sensibilização com os alunos adolescentes, atuado no fomento ao protagonismo juvenil e promovido rodas de conversas e círculos de diálogo, como atividades do Plano de Ação de Prevenção à Violência e Proteção de Crianças e Adolescentes na escola, projeto co-financiado pela União Europeia.

Segundo a coordenadora escolar e mediadora de conflitos, professora Maria Valdenice da Silva Gomes, desde a inauguração da sala já foram realizados uma média 15 círculos restaurativos, incluindo círculos de construção, de acordo em sala de aula e de mediação de conflitos. Entre os casos de mediação de conflito que obtiveram sucesso, está o que envolveu a  professora de Língua Portuguesa Lília da Silva Costa e o aluno do 1° ano do Ensino Médio Felipe Oliveira dos Santos. A situação conflituosa, que aconteceu no segundo semestre do ano passado, chegou ao seu ápice em sala de aula, a ponto de ser solicitado um círculo restaurativo com a finalidade de se estabelecer um entendimento para que a harmonia e o respeito se fizessem presentes no convívio entre as duas partes envolvidas, evitando assim que a problemática chegasse a afetar outros alunos e professores.

“Primeiro, quando você realmente tem uma oportunidade de escutar o outro, percebemos que tem coisas naquela situação que você não tinha percebido. Segundo, é a oportunidade que você tem também de ser ouvida. Geralmente, nas situações de conflitos ninguém se detém a escutar plenamente o outro. Uma emoção que estava estagnada de forma bem vingativa, vamos dizer assim, ou uma raiva, uma mágoa, tem a chance diante da fala do outro de se transformar em outro sentimento. Você vê que as coisas não eram bem assim, ou que o problema não era tão grande. Você descobre que o outro tinha razão”, compartilhou a professora Lília da Silva. A experiência do conflito e depois da mediação a fez entender que a vivência pode ser vista como um momento de crescimento pessoal e de aprimoramento da convivência interpessoal para todas as partes envolvidas. “Viver a mediação para mim foi uma experiência realmente inovadora. Eu já sou fã dessa ideia de mediar conflito”, complementou.

O círculo restaurativo também proporcionou para o aluno Felipe Oliveira um novo olhar acerca das relações interpessoais e da boa convivência entre as pessoas. “Eu pensava que era só simplesmente ficar com raiva e não encarar o problema de frente para resolver. Ou seja, eu achava que ia ficar com raiva pelo resto da minha vida. A partir da conversa no círculo restaurativo de mediação, eu pude perceber que realmente as coisas não são da maneira que nós pensamos. Agora eu sei que o diálogo é a melhor forma que tem de resolver algum conflito”, afirmou o estudante. Ele relata que quando estava no círculo, parou parar ouvir a versão da professora e depois contou a sua versão, e a partir de então estabeleceu-se uma conversa. “Eu ouvi palavras da mediadora que naquele momento aliviou o que eu estava passando, o que fez eu entender que o problema poderia ser resolvido com um simples diálogo”, disse o aluno. Felipe Oliveira acredita que uma conversa bem estabelecida é a saída para resolver uma situação considerada complicada.

A prática dos círculos restaurativos que mudam uma realidade

A coordenadora escolar Maria Valdenice afirma antes de ser implantada a Sala de Mediação da Escola de Ensino Fundamental e Médio Senador Osíres Pontes, os casos de indisciplinas graves dos alunos, como agressões físicas e brigas, eram resolvidos com punições. Em algumas situações a coordenação até considerava o aluno passível de transferência para outra escola. “Com a vinda das práticas restaurativas, nós estamos tendo um novo olhar para essas resoluções, porque agora ao recebermos a questão, avaliamos antes de tomarmos uma decisão. É demanda para uma mediação? É caso para um círculo restaurativo? Ou é realmente passível de uma punição? Em último caso é que nós aplicamos a suspensão”, afirmou Valdenice. Segundo ela, quando acontece um caso de agressão física, por exemplo, é feito um círculo restaurativo, onde depois da conversa os próprios alunos envolvidos no caso se encarregam de se desculparem e tudo volta a ficar bem. Depois do círculo restaurativo que participaram a professora Lília da Silva e o aluno Felipe Oliveira, por exemplo, ambos voltaram a ter um bom relacionamento, e até melhor do que antes do conflito, segundo eles.

“A prática do círculo ou a técnica de mediação de conflitos permitem que as pessoas que estão naquele círculo falem pelos seus sentimentos, que resultaram daquele problema que tiveram os envolvidos. E no momento que se fala dos sentimentos, elas passam a se aliviar, passam também a ouvir o outro. Isso que é o bom do círculo, porque permite a escuta e a fala de forma tranquila. Não há gritaria, porque no círculo nós preparamos as pessoas que estão lá, primeiramente, repassando as orientações que constam na metodologia da conversa, os valores que vão nortear o diálogo, ressalta que a conversa tem que ser tranquila, que tem que seguir em paz e ter o respeito. Então, isso faz com que uma discussão, um assunto que poderia ser discutido com gritaria se resolva na tranquilidade, na paz”, socializou a coordenadora.

Para Maria Valdenice, enquanto pessoa, a prática restaurativa de mediar, de construir, fez com que ela passasse a refletir mais. “Diante de uma situação conflituosa, hoje eu já recuo mais, já presto mais atenção. Passei a ser mais observadora e a me preocupar mais com a escuta, porque para nós mediarmos, facilitarmos um círculo, nós precisamos ouvir tudo aquilo que eles têm a dizer de forma imparcial. Nós não podemos intervir na fala, nas decisões, nos acordos. Nós apenas facilitamos aquele momento”, compartilhou. Já como coordenadora escolar, ela conta que aplaudiu desde o momento que as práticas restaurativas passaram a fazer parte das atividades da unidade escolar. Sobre a implantação de práticas circulares nas escolas, ela considera importante para o bom desenvolvimento e crescimento interno. “Se nós temos uma forma tranquila de resolver os conflitos, o ambiente escolar se transforma, ele passa a ser outro. Passa a ser um ambiente mais seguro, mais confiável”, finalizou.