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O olhar de um adolescente que viu uma esperança na aplicação da Justiça Juvenil com enfoque restaurativo

Para o adolescente Vinícius Ferreira, a Justiça Juvenil Restaurativa vem para restaurar, por considerar que a Justiça que temos hoje tem o papel de punir, enquanto a Justiça Restaurativa vem para restaurar a vítima e o ofensor.


Vinícius Ferreira participa ativamente do Grupo de Referência de Adolescentes e Jovens Mucuripe da Paz nos encontros semanais e nas ações e eventos sociais organizados pelo grupo.

O primeiro contato do adolescente Vinícius Ferreira Feitosa da Silva, de 16 anos, integrante do Grupo de Referência de Adolescentes e Jovens Mucuripe da Paz, com a temática da Justiça Juvenil Restaurativa e o Instituto Terre des hommes Brasil aconteceu ainda no final do ano de 2015, quando participou de um curso ocorrido na Escola de Ensino Fundamental e Médio General Murilo Borges para capacitar alunos para colaborarem na mediação de conflitos. Apesar de não ter concluído a formação, ficou plantado em seu coração o desejo de conhecer mais sobre a metodologia que passava a ser aplicada em sua escola com o objetivo de reduzir os índices de violência e implantar uma cultura de paz, cuja expectativa era não só impactar a unidade escolar, mas abranger as comunidades do Grande Mucuripe a partir de ações sociais realizadas próprios adolescentes.

A decisão por se engajar no projeto “Mucuripe da Paz”

O tempo passou e foi somente em maio de 2017 que Vinícius Ferreira decidiu conhecer mais de perto o projeto 'Mucuripe da Paz' e resolveu se engajar. Primeiramente, ele participou de um debate comunitário sobre ato infracional e medidas socioeducativas, que aconteceu no Núcleo Judicial de Práticas Restaurativas do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJ-CE), situado no Fórum Clóvis Beviláqua. “Foi muito bom ter participado da atividade, porque foi a partir de então que eu comecei a me interessar em fazer parte do projeto. Se eu era um garoto que não me interessava pelas políticas públicas, não queria saber dos meus direitos, eu comecei a ter interesse, a ter gosto”, disse o estudante, que também é membro do grêmio estudantil da Escola Murilo Borges.

Nesse processo inicial de engajamento no Grupo de Referência de Adolescentes e Jovens Mucuripe da Paz, Vinícius Ferreira foi incentivado a ler o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o estatuto do grêmio estudantil. Foi então que ele descobriu que a vida não se resumia apenas ao contexto social que estava acostumado a enfrentar, mas que tinha seus direitos e precisava se empoderar deles. Aos poucos, o estudante foi entendendo que poderia contribuir para mudar uma realidade, nem que fosse a realidade do seu entorno. Ele continuou a participar de outros debates comunitários, de reuniões de planejamento do próprio grupo para a realização de círculos nas escolas e nas comunidades do Grande Mucuripe, do podcast “Vozes” e de outras ações sociais.

A satisfação de estar contribuindo para a implantação de uma cultura de paz


Um dos eventos que marcou o desenvolvimento do adolescente Vinícius Ferreira como protagonista de sua comunidade foi a partipação no I Encontrão de Adolescentes e Jovens Mucuripe da Paz.

Uma das atividades que ele participou ao longo destes meses foi do Curso de Facilitadores de Círculos de Construção de Paz, promovido pelo Instituto Tdh Brasil no final de julho deste ano para estudantes das escolas da região. “Desde então, eu venho fazendo círculos de diálogo na Escola Murilo Borges e na Escola Municipal de Ensino Infantil Belarmina Campos. Mas eu sempre penso em fazer em qualquer local da comunidade, tanto em encontros com amigos como nas praças. Inclusive, já fiz um círculo na Praça do Mirante, no Vicente Pinzón, com amigos e outros adolescentes”, compartilhou Vinícius Ferreira. Ele conta que já conduziu círculo de diálogo sobre bullying, bons relacionamentos familiares e protagonismo juvenil, e ajudou na condução de um sobre gratidão, realizado na Escola Matias Beck com a participação da norte-americana Kay Pranis. Em um destes círculos, ele compartilhou que se emocionou com o sentimento externado por determinada pessoa a seu respeito, depois de ter liberado o bastão da fala. “Eu fiquei muito emocionado com aquela fala e senti a diferença, porque eu fiz a diferença na vida de um adolescente”, afirmou.

“Para mim, esse trabalho que o Instituto Tdh Brasil faz com os adolescentes no projeto 'Mucuripe da Paz' é muito importante porque muda a realidade do jovem que vive hoje na comunidade, porque eles pensam que estão desassistidos. É muito comum ocorrer na nossa comunidade muitos atos de violência e o uso de drogas lícitas, como o álcool e o cigarro. E quando há esse acompanhamento, quando nós chegamos juntos dos adolescentes para conversar ou quando realizamos os debates comunitários, percebemos que muda para melhor a autoestima do jovem que está nesta situação. E nós, principalmente, que somos multiplicadores, dizemos: 'Olha, isso não é assim, tem outros meios para ser feliz'”, disse ele ao ressaltar a importância do desenvolvimento do projeto com os adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Ele relata que antes os seus vizinhos o viam como um adolescente acomodado e sem envolvimento direto com outros adolescentes e a própria comunidade. Mas a situação mudou desde quando passou a ser um dos beneficiários. “Eu passei a conversar, a incentivar algumas pessoas da comunidade que antes eu não dialogava a não usar drogas e passei a mostrar o que o mundo é de verdade”, complementou.

A mudança de comportamento e mentalidade

Vinícius Ferreira afirma que depois que passou a ter o acompanhamento dos técnicos do Instituto Terre des hommes Brasil no projeto 'Mucuripe da Paz', mudou consideravelmente o seu comportamento. “Eu me tornei uma pessoa irreconhecível. Quem me conheceu em 2015 e em 2016 hoje não me reconhece mais, porque eu mudei totalmente. Hoje eu sou uma pessoa mais empática, me tornei mais sociável. Antes, eu entrava em qualquer local e não falava com ninguém, ficava só na minha. Mas hoje não, eu já chego e converso. Então, o meu envolvimento no projeto trabalhou toda a minha timidez”, afirmou o adolescente. No I Encontrão de Adolescentes e Jovens Mucuripe da Paz, por exemplo, realizado em julho de 2017, ele participou apresentando as atividades do evento que ocorreram na própria escola.

As pessoas referenciais que lhe inspiram e fazem a diferença em sua vida


Vinícius Ferreira é aluno do 2° ano do Ensino Médio da Escola Murilo Borges, situada no bairro Vicente Pinzón em Fortaleza.

Pessoa como referencial ele não tem apenas uma, mas várias que lhe inspiram e fazem a diferença na sua vida todos os dias. “Eu tenho a minha professora Biologia e Cidadania Najara Ingrid Lopes, que sempre me incentiva em tudo. Inclusive, eu pretendo futuramente cursar Biologia. Tenho a minha professora de Português Micarla Bezerra, uma mãezona também. Tenho a assistente social Paula Rodrigues, do Instituto Tdh Brasil, que sempre está incentivando os adolescentes que fazem parte do projeto. Tenho os meus pais Wyara Ferreira e Gilberto Feitosa. Tenho a minha tia Lena Ferreira, principalmente, que mora em João Pessoa, na Paraíba. Tenho também a diretora da escola, Maria Célia de Deus; e o coordenador escolar Lindemberg Santos. São pessoas que simplesmente me inspiram”, relacionou.

A concepção sobre a Justiça Juvenil Restaurativa

Para o adolescente, a Justiça Juvenil Restaurativa vem para restaurar, por considerar que a Justiça que temos hoje tem o papel de punir, enquanto a Justiça Restaurativa vem para restaurar a vítima e o ofensor. “A Justiça Restaurativa é mais eficaz do que punir, porque o ofensor, se ele for punido, vai fazer a mesma coisa novamente; e na Justiça Restaurativa não. A JJR é uma saída para reduzir a violência ou mudar a realidade social de uma comunidade. Nós temos como exemplo a Escola Murilo Borges, que hoje tem um diálogo maior com os alunos. Ela não pune mais, e nem dá mais advertência. A escola conversa. Isso diminuiu os índices de expulsão e o número de alunos suspensos devido ao diálogo que a gestão estabelece com os alunos quando ocorre algum ato de violência”, opinou Vinícius Ferreira.

Pensamentos sobre o futuro

Sobre a expectativa de vida que ele tem daqui para a frente, Vinícius Ferreira espera que cada vez mais esteja atuante, sendo um jovem protagonista de sua geração, fruto do seu crescimento e amadurecimento no sentido de sempre querer fazer o bem para o próximo. “Eu acredito que para seguir com este objetivo de vida, primeiro de tudo, nós temos que acreditar em nós mesmos, e temos que ter amor próprio, porque antes eu não acreditava em mim mesmo, era uma pessoa que não ligava para nada da vida. Eu achava que era só o meu mundo e não é só o meu mundo, tem outras pessoas nele também. Para cuidar dos outros, temos que cuidar de nós mesmos. Então, é gostar de si mesmo. Como nós adolescentes estamos sempre cuidando e escutando vários jovens, primeiro temos que cuidar de nós primeiro para depois cuidar dos outros”, refletiu.

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