Banner
justiça
segurança
assistência
educação e saúde
sociedade civil
Você está aqui: Página Inicial / Notícias / Autoridades e voluntários planejam alternativas para atacar a intolerância em Caxias

Autoridades e voluntários planejam alternativas para atacar a intolerância em Caxias

Crimes por motivos banais e os ataques a imagens religiosas reforçam necessidade de atenção ao tema A onda de ataques a imagens religiosas em Caxias do Sul e em Farroupilha —nove casos desde novembro de 2015, incluindo os danos produzidos na imagem de Nossa Senhora de Caravaggio — é o sintoma mais recente de intolerância. Ele se juntou a um indicador especial da violência em Caxias do Sul em 2015. Dos 115 assassinatos verificados ao longo do ano, pelo menos 10 das mortes poderiam ser evitadas com o diálogo, segundo apurou o Pioneiro.
Autoridades e voluntários planejam alternativas para atacar a intolerância em Caxias

A professora e agente de saúde do bairro Desvio Rizzo Isabel Viapiana participou da primeira turma de capacitação de voluntários em novembro do ano passado. Ela conta que abraçou o projeto pela compaixão e percepção ao próximo.

Crimes por motivos banais e os ataques a imagens religiosas reforçam necessidade de atenção ao tema

A onda de ataques a imagens religiosas em Caxias do Sul e em Farroupilha —nove casos desde novembro de 2015, incluindo os danos produzidos na imagem de Nossa Senhora de Caravaggio — é o sintoma mais recente de intolerância. Ele se juntou a um indicador especial da violência em Caxias do Sul em 2015. Dos 115 assassinatos verificados ao longo do ano, pelo menos 10 das mortes poderiam ser evitadas com o diálogo, segundo apurou o Pioneiro.

— Nós vemos uma situação limite na sociedade atualmente. É um momento em que falta tolerância. O diálogo deve acontecer para que possamos conhecer a outra pessoa antes de simplesmente julgá-la — afirma o padre Rudinei Zorzo, que trabalha no setor da Juventude da Diocese de Caxias do Sul. Na denominação diocesana, ele atua como referencial do setor.

Para que o quadro de violência não se repita em 2016, órgãos públicos, autoridades, voluntários e religiosos pretendem reforçar as políticas públicas e ações sociais nas regiões mais vulneráveis. Uma das propostas é o projeto Voluntários da Paz, previsto no Programa Municipal de Pacificação. Ele já está em curso desde novembro. A ação pretende formar, até novembro, mil voluntários que trabalharão na prevenção e na identificação de conflitos nas suas próprias comunidades. O curso deve ser retomado em fevereiro e é aberto à comunidade.

A professora e agente de saúde do bairro Desvio Rizzo Isabel Viapiana participou da primeira turma de capacitação de voluntários em novembro do ano passado. Ela conta que abraçou o projeto pela compaixão e percepção ao próximo.

— Antes de participar do curso, eu não sabia o que era justiça restaurativa. Hoje, entendo que, com o meu trabalho posso promover a pacificação. Também acredito que as pessoas não estão perdidas, elas podem ser restauradas se ajudarmos — afirma Isabel que atua como facilitadora da paz, outra ação desenvolvida pela Secretaria Municipal de Segurança Pública.

Outra ferramenta é a Justiça Restaurativa, ação coordenada pelo Tribunal de Justiça do Estado que já vem sendo desenvolvida em Caxias do Sul. Um dos braços da iniciativa é a Central da Paz Comunitária, localizada no bairro Cânyon. A central busca a mediação de conflitos na Zona Norte, área com maior incidência de homicídios em 2015.

Somente nos bairros Santa Fé, Belo Horizonte e Cânyon, foram 14 homicídios. A coordenadora da central, Susana Duarte, diz que há uma falta de pertencimento social e situação de exclusão, principalmente dos jovens que vivem em regiões mais humildes, fator que ajudaria a explicar os altos índices de violência nessas comunidades.

— Não há uma acolhimento e muito menos acesso a todos os serviços que uma cidade como Caxias disponibiliza. Isso acaba levando parte dos jovens a cometerem atos infracionais — explica Susana.

Para que esses índices diminuam, a central trabalha na busca pela pacificação e na mediação dos conflitos. Durante o processo, os envolvidos participam de círculos de construção de paz. São encontros mediados por facilitadores da paz em que há um debate dos problemas. A intenção não é julgar, mas, sim, chegar a um consenso diante dos conflitos, segundo Susana.

— Hoje, nós percebemos que há uma demanda espontânea na comunidade. Por exemplo, uma família participa de uma solução de conflito, percebe que dá certo e acaba indicando a central para os parentes e vizinhos — ressalta a coordenadora.
A Central da Paz Comunitária atende a cerca de 20 casos por mês. O trabalho é realizado diariamente junto ao Núcleo de Capacitação Cânyon.

A Secretaria de Segurança Pública do município tem um núcleo de pacificação social, coordenada por Raquel Simone de Azevedo Dessoti. Raquel diz que a pasta dará continuidade à implementação das chamadas redes de pacificação social, que reúnem esforços para resolver os problemas relacionados à violência nas comunidades.

Uma rede de pacificação contempla reuniões mensais articuladas pelos próprios moradores que reúnem lideranças e órgãos e serviços que atuam na comunidade. A secretaria dá suporte e leva as experiências que deram certo de um lugar para o outro. Durante a Semana Municipal da Paz, é realizada a exposição dos trabalhos das comunidades.

— No bairro Desvio Rizzo, por exemplo, os moradores apontaram a necessidade de atenção aos jovens. A partir de um trabalho em conjunto, conseguimos a reforma da pista de skate — exemplifica Raquel.

Os trabalhos das redes devem recomeçar em março com encontros em 10 regiões.

Prevenção na juventude

Algumas das propostas discutidas durante a Conferência Municipal da Juventude do ano passado apontaram o clamor dos jovens caxienses em relação à segurança e à paz na comunidade. Uma delas é a criação de um comitê de combate à violência contra a juventude. O debate em torno da violência envolvendo jovens é imprescindível, visto que 64 das 115 vítimas de homicídio de 2015 tinham entre 18 e 35 anos de idade.

Enquanto as propostas tiradas na conferência precisam ser viabilizadas na prática, a coordenadoria centraliza forças em operações como o programa Paz no Bairro, que já é desenvolvido no loteamento Villa-Lobos e envolve aulas de capoeira, instrução para o primeiro emprego e prevenção de drogas durante encontros semanais. As atividades são levadas para toda a comunidade e poderão ser expandidas para outros bairros, segundo o coordenador da Juventude Vinícius Nascimento Iraí  .

No entanto, os trabalhos mudam de rumo quando os jovens já tiveram algum contato com a violência e devem obedecer a medidas socioeducativas impostas pela Justiça. Neste caso, entra em ação o projeto Oficina Cidadã que atendeu até 15 jovens por mês durante março e dezembro de 2015 e prosseguirá este ano.

— Muitos desses jovens estiveram envolvidos em bondes, em pichações e brigas. A intenção do trabalho é que eles não repitam esse erro e sigam para o caminho do bem — explica Vinícius.

Na Pastoral da Juventude, ou setor de juventude da Diocese de Caxias do Sul, as atividades de prevenção perpassam muito mais pelo campo teórico do que prático. A partir da mensagem deixada pelo Papa Francisco ( “Ide, sem medo, para servir”) durante a Jornada Mundial da Juventude em 2013, as lideranças católicas convidam os jovens a refletirem sobre o seu papel na construção da paz.

— Nós insistimos muito aos jovens que o diálogo aconteça, que ele tente entender o porquê a pessoa pensa ou se comporta de tal maneira — explica o padre Rudinei Zorzo.

 

Fonte: Jornal Pioneiro | Foto: Jonas Ramos